segunda-feira, 6 de abril de 2026

A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga Nunes


Clássico da literatura infantojuvenil brasileira, A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga Nunes foi publicado em 1976, e ainda assim, permanece incrivelmente atual. É o tipo de leitura perfeito para aqueles que são, ou já foram, crianças um dia.

A obra nos apresenta Raquel, uma menina sensível e imaginativa que carrega dentro de si três vontades: crescer, ser garoto, e se tornar escritora. Por ser a caçula, a família não tem paciência com ela, não escuta, e frequentemente transforma suas tentativas de expressão em motivo de riso.

É nesse silêncio imposto que Raquel cria refúgio, inventa amigos imaginários, André e Lorelai, e passa a escrever cartas para eles, como uma forma compartilhar seus sentimentos e de ser ouvida, ainda que no imaginário. Porém sempre que suas cartas eram descobertas, causavam confusão em sua família, o que a fez desistir de escrever cartas.

"Quando eu nasci, minhas duas irmãs e meu irmão já tinham mais de dez anos. Fico achando que é por isso que ninguém aqui em casa tem paciência comigo: todo mundo já é grande há muito tempo, menos eu. Não sei quantas vezes ouvi minhas irmãs dizendo: ‘A Raquel nasceu de araque. A Raquel nasceu fora de hora. A Raquel nasceu quando a mamãe não tinha mais condição de ter filho.’. Tô sobrando, André. Já nasci sobrando. É ou não é? […]"

Na tentativa de continuar criando, a pequena escritora decide investir romances, escreve sobre um galo chamado Rei que, cansado de ser chefe do galinheiro, resolve fugir. Mas, mais uma vez, sua privacidade é invadida e sua imaginação vira motivo de chacota. Cansada e magoada, ela desiste de escrever sobre qualquer tema e decide esconder as três vontades, para que ninguém as veja.

"Mas eu não era que nem meu avô, meu bisavô, meu tataravô, o que é que eu podia fazer? Eu sei que ia ser muito mais fácil eu continuar pensando igualzinho a eles. Mas eu não pensava, e daí?"

Um dia, chegam à casa de Raquel as doações da tia Brunilda, que tinha o hábito de repassar tudo aquilo de que já havia enjoado. Entre várias roupas e acessórios, a única peça que ninguém da família quis, foi uma bolsa amarela, e ela fica para Raquel. É na bolsa amarela que Raquel guarda suas três grandes vontades, seus segredos, seus medos e também tudo aquilo que ainda insiste em florescer dentro dela.

A partir daí, o limite entre realidade e imaginação se dissolve de forma encantadora e os personagens das suas histórias adquirem vida própria: o galo Rei, que mudou seu nome para Afonso e que segue fugindo para não seu capturado; seu primo, o Terrível, um galo de briga, que estava prestes a morrer numa competição com um galo mais novo e forte. Aos poucos, até os objetos entram nesse universo vivo e sensível, uma guarda-chuva mulher que está quebrada e fala uma língua estrangeira, o Alfinete de Fralda, que foi encontrado enferrujado na rua, sonhando em se mostrar ainda útil e uma série de nomes que gosta.

Para manter esse pequeno mundo protegido, ela passa a carregar a bolsa amarela por todos os lugares, porém, à medida que seus sentimentos são reprimidos, mais suas vontades aumentavam fisicamente e pesavam a bolsa.

"Às vezes a gente quer muito uma coisa e então acha que vai querer a vida toda. Mas aí o tempo passa. E o tempo é o tipo de coisa que adora mudar tudo. Um dia ele muda você e pronto: você enjoa de ser pequena e vai querer crescer."

A Bolsa Amarela é um livro bem curtinho, com apenas 115 páginas, mas que carrega uma sensibilidade imensa. É leitura leve, divertida e agradável, daquelas que você começa despretensiosamente e, quando percebe, já chegou ao fim. E, no meu caso, ainda deixou aquela vontade gostosa de mergulhar em outras obras da autora.

É impossível não se identificar com Raquel. Quem nunca, na infância, se sentiu diminuído, ignorado ou incompreendido pelos adultos? Quem nunca teve suas vontades desconsideradas, sua privacidade invadida, seus sentimentos tratados como exagero? O livro toca justamente nesse lugar sensível, o da criança que sente muito, mas nem sempre é levada a sério, que muitas vezes é obrigada a fazer coisas que não quer ou até a se expor para entreter os adultos.

Mais do que uma história sobre infância, A Bolsa Amarela fala sobre identidade, escuta, liberdade de expressão e crescimento. Aborda, com delicadeza, questões como o silenciamento das crianças, os conflitos internos, o direito de sentir e existir, e até mesmo reflexões sobre gênero, mostrando como, desde cedo, meninas e meninos são tratados de formas diferentes, com expectativas e limitações distintas.

E você já conhecia essa obra? Continue acompanhando o blog para mais indicações de leitura.

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